Conto: Tango e o bilhete

A Bigorna 02/01/2018 12:12:00 529 visualizações
# legenda: Episódio 1

Sou um cara pacato.

Meu nome é Tango. Afrânio Tango, detetive particular.

Trabalho muito e ganho pouco. É Brasil. Somos explorados!

O dia no escritório estava monótono. Baby, meu  hamster me fez companhia o dia todo. Claro, que à custa de belos e suculentos pedaços de queijo que comprei fiado no bar do Português. O Portuga é gente fina. Ele vende fiado pra mim.

Eram 5 da tarde quando tirei a gravata, troquei de roupa e saí em desabalada carreira em direção ao Bar da Gertrudes, minha amiga de anos a fio. Lá é o melhor do forró que possa existir. Sou da casa.

Quase chegando ao meu boteco preferido, olhei de lado e vi que não havia fila na Casa Lotérica. Nunca jogo, pois não suporto filas. Entrei, pedi um bilhete da Quina e saí.

Já no bar as meninas já estavam todas animadas. Havia me esquecido, na verdade, era sexta-feira. A alegria estava estampada. Mamãe me dera dinheiro naquele dia, assim, decidi que só tomaria whisky naquela noite que estava por vir.

Noite adentro fui no embalo. Chegou meu amigo, Herculado, batemos papo rimos e até paguei uma bebida a ele. Estava bonzinho naquele dia.

Tirei o bilhete do bolso, já meio embriagado, peguei um papel e anotei os números, eu sou assim, meio excêntrico. Depois coloquei os números anotados na carteira e o bilhete no bolso. Engano de beudura é claro, mas nem me dei conta.

O calor era tanto que naquela noite, mulher estava saindo pelo ‘ladrão’ de tão cheio que estava o forró. Devo ter dançado com umas 10 garotas naquela noite. Enfim, estava feliz. Não me pergunte por que, porquê,  não sei.

Dormi no quarto de cima da Gertrudes. Ela tem uns miniquartos que aluga para quem consome suas garotas. A menina não era essas coisas, faltava um dentinho aqui ou ali, mas nada como lutar pela pátria amada.

Do jeito que deitei dormi. Deve ter sido um favor para minha vampira. Isso mesmo, agora me lembro, apelidei-a de vampirinha.

Acordei com a Gertrudes batendo na porta e me mandando embora. Gertrudes é muito educada.

Sai me atabalhoado em direção ao escritório, só quando passei novamente defronte a lotérica, me lembrei de que tinha que conferir o bilhete. Olhei os números anotados, e senti que iria morrer do coração. Havia acertado a Quina. Mais de 2 milhões o prêmio. Tateei meu bolso e só saiu umas moedas que havia sobrado da noitada.

Voltei na Gertrudes e perguntei se ela havia achado um bilhete. Ela nem demorou a responder. Havia vários papéis no chão, quando pela manhã fizera a limpeza, e notara um papel, sim, de loteria, mas que tudo fora para o lixo.

Inconformado, perguntei onde estava o lixo. Recebi uma resposta seca de que o lixeiro já havia passado. Saí correndo e peguei um táxi.

“Rápido. Vamos no lixão”.

O motorista teve um sobressalto, afinal, acho que ele nunca havia levado alguém pro lixão.

Não demorou muito. O trânsito estava suave e logo ele me deixava no local.

Topei com muitos coletores de reciclagem e fui logo dizendo que ali estava um bilhete de loteria, e que o dono era eu mesmo, Tango, Afrânio Tango, puxando a jaqueta para o lado para que vissem a ‘catarina’, meu revólver de cano curto que era minha amiga inseparável.

Foram horas vasculhando. Estava exausto. De repente, um catador gritou achei algo.

“Saí correndo gritando, é meu ... é meu ... é meu”.

Quando cheguei perto dele vi que era um frango assado. Os catadores se irritaram com este ser impoluto e vieram pra cima de mim. Levei uns tapas, sopapos e caí desacordado. Eles até que foram legais e chamaram o SAMU.

Acordei noutro dia num hospital. Mamãe estava ao lado fazendo tricô e vendo o jornal matinal. Mamãe nunca me abandona.

Comecei a olhar o jornal, quando, de repente, fiquei quase sem bunda. Uma repórter estava entrevistando um catador de reciclagem que ganhara sozinho mais de 2 milhões na Quina.

Canalha!

Fiquei nervoso e tentei me levantar, mas estava sedado e caí da cama. Mamãe acionou a campainha e uma enfermeira veio me socorrer.

Era loira, linda e virgem.

Fiquei apaixonado.

Sou foda.

Tango, Afrânio Tango, detetive particular! Mais pobre do que nunca!

Por André Guazzelli

 

 

 

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