• Literatura Detetive Tango
    177 Jornal A Bigorna 10/06/2021 08:00:00

    Eu sei que vocês não gostam de mim, mas não estou nem aí pra vocês, tá certo? Basta mamãe e o Herculano me amarem que sou feliz do meu modo. Hoje estou duplamente triste.

    Terrivelmente triste.

    Estava na minha melhor fase como detetive particular e prestes a elucidar um terrível crime, que nem os poliças conseguiram. Os tiras estão abaixo da média atualmente, já que o governo não contrata policiais mais novos e estão sobrando somente os velhinhos. Qualquer dia desses ainda topo com um delegado de andador fazendo flagrante.

    Mas como estava lhes dizendo, o caso era rough como dizem no jargão detetivesco.  Contudo, quando tudo iria chegar ao autor do crime brutal, eu peguei a tal da covid. Fui mandado para um local chamado covidário. Quanta gente feia. Eu no meu terno italiano costurado pelo Armandinho da Freguesia, em trajes ultra-super-chique, tive que ficar em observação.

    No entanto, atarantem, mamãe apareceu. Sim, ela nunca falha. Tirou-me daquele lugar de pobres e me levou para o nosso lar doce lar, onde pagou uma enfermeira para cuidar de mim. Mamãe não é só bela, ela é uma flor que veio ao mundo para cuidar de mim.

    Dois dias depois a enfermeira foi contaminada e morreu no dia seguinte.

    Uma tragédia.

    Mamãe ficou muito irritada e me mandou de volta pro covidário. Fiquei lá por uma semana. Qui terror. Puseram até fraldas em mim. Me senti acuado. Justo eu um homem ilibado e impoluto jogado às traças.

    Reclamei e xinguei todo mundo lá. Sou bom, mas também sou terrível. Depois de um tempo de escárnio, um médico me mandou pro isolamento. Parecia uma solitária. Só mandavam água e comida. Bando de gente cruel.

    Após ter alta, sim eu venci o covid, fui para casa. Encontrei um bilhete carinhoso de mamãe. Ela dizia que estava nos alpes chilenos em excursão. Mamãe é turista!

    Dormi o dia todo. A noite estava em plena forma e, claro dei um pulo na Gertrudrez, meu bar favorito. Quando cheguei todo mundo jogou álcool em gel em cima de mim. Tive que mostrar o papel que estava curado. Nessa horas até os amigos do peito maltratam a gente.

    Passamos a noite com as portas fechadas , pois os butecos não estavam podendo ficar abertos à noite. Foi divertido, mas sem o forró ficou meio borococho.

    Na manhã seguinte após meu banho especial, voltei ao escritório. Por lá permaneci em investigação profunda por mais de 24 horas. Saía somente pra comer  na Padaria do Português e voltava. Estava num ritmo alucinante. Tomei uns rebites e passei a noite em claro.

    Fui a fundo, sou profissional, um dos melhores.

    Quando já raiava o dia, enfim, eureca!

    Estava o tempo todo ali. Era ele mesmo.

    Safado , cavalo, cachorrão.

    Peguei um táxi e sai em desabalada carreira para prender o safado. Em minha mente já via as rádios, jornais e TVs me entrevistando. Me tornaria uma estrela e seria mundialmente reconhecido como o novo Sherlock Holmes.

     Ele era um homem do alto escalão do governo e seria um babado. Prender um secretário de estado, influente e rico. O top da carreira havia , enfim, chegado a mim.

    Seu crime? Vocês querem saber? Só vou contar depois que prender o canalha.

    Não demorou e fui sendo logo atendido pelo seu assessor.

    Sabia que eles sabiam que eu sabia de tudo.

    Sou impiedoso!

    Levaram-me até uma sala escura, opa. Quando parei, dois crocodilos de uns dois metros de altura me empurraram para dentro.

    Sou um detetive de gabarito e treinei artes marciais. Foi chute, murro e pédovido pra todo lado. Dei tanta carada nas mãos dos caras que acredito ter quebrados muitas delas.

    Acordei jogado numa sarjeta que dava para um córrego. Minha cara estava parecendo um globo de inchada. Apanhei, mas quebrei umas mãos daqueles brutamontes cretinos, também.

    Noutro dia acordei com uma dor lancinante em minha majestosa face. Peguei o jornal e ali estava estampada a manchete principal: “Morre o secretário de estado Tadeu Obreiro, mais conhecido na adolescência como Tadeuzinho do pó.

    O desgraçado morre antes de pagar pelo crime.

    Não resisti e fui ao velório.

    Sou um homem que não teme nada e não deu outra. Tomei outro pau. Quando acordei, rapidamente me vinguei, afinal eu também sei ser cruel. Todos já haviam partido e mijei no túmulo do safado.

    Sou uma pessoa boa, mas também sou cruel.

    Esclareci um crime brutal. Fui até o promotor e mostrei todas as provas e evidências contra o defunto assassino. Os seguranças me tiraram de lá à força.

    Fui maltratado pelo poder público.

    Jurei vingança.

    Eu sempre juro!

    Tango, Afrânio Tango, detetive particular.

     

     

     

     

     

     

     

     

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